Compreender o "Descendente
do Lobo"
Como descendente do lobo, o cão mantém ainda hoje inalteradas as pautas
de comportamento que deste herdou, e que determinam muito do que ele será, como nos
olhará, do que esperará de nós e do que nos pode dar.
Vejamos uma pequena "montagem" de algumas cenas marcantes da
vida desse seu antepassado, um lobo, e fixemos alguns comportamentos típicos para mais
tarde os interpretar:
Nasce, no covil que a sua mãe providenciou. Este é escuro, de fundo
abaulado, suficientemente espaçoso, com a entrada disfarçada para não chamar a
atenção de possíveis predadores.
Depois de nascer, mama e defeca, sem disso se aperceber, durante alguns
dias. A mãe, pressurosa, come as fezes que ele produz, lambendo-lhe o ânus até ficar
bem limpo e a barriga, para comprimir-lhe a bexiga, por forma a que urine. Limpo, seco, e
de barriga cheia, durante duas ou três se-manas quase que só dorme e come.
Ao longo dos dias vai crescendo e começando a mover-se de forma mais
consequente. Busca as tetas da mãe, disputa aos irmão o seu quinhão de leite, vai
começando a ter movimentos mais largos e consequentes dentro do covil. Porém, a forma
abaulada do fundo deste fá-lo "rebolar" de volta para o centro, onde se mantém
"empilhado" com os irmãos, aquecendo-se mutuamente. A mãe, alguns dias depois
do nascimento, começa a abandonar o ninho para caçar pequenas presas e beber água, pois
tem muito leite que produzir. Daí o ter-se assegurado de que o covil contribuirá, com a
sua forma, para manter os filhos juntos e quentes.
Entretanto, o lobinho abriu já os olhos e as orelhas (que também
nascem fechadas), e embora não veja ainda nitidamente nem associe aos ruídos qualquer
significado, vai-se habituando aos jogos de claro-escuro e aos sons, diferencia os irmãos
e vai procurando a teta da mãe com crescente avidez. Os dentes que entretanto despontam
começam a tornar-se desagradáveis à mãe, que, magoada, vai reduzindo o tempo de
permanência com os filhos. Isso deixa-lhe igualmente mais tempo para a caça, que parece
nunca chegar para a voracidade dos pequenos.
As entradas e saídas mais frequentes ameaçam denunciar o covil. Daí
que, por vezes, a mãe loba prepare covis alternativos, em novos sítios, para onde depois
transfere os filhos, um por um, carregando-os na boca. Pode chegar a "mudar-se"
cada duas semanas.
Finalmente, um pouco depois do mês, os pequenos lobos, cansados dos
limites estreitos do interior do covil, onde se guerreiam infindavelmente uns com os
outros enquanto a mãe não aparece, arriscam-se às primeiras espreitadelas ao exterior.
Não se afastam muito, de princípio, e nem sonham em fazer as suas necessidades no
exterior, pois tal poderia denunciar de forma fatal a presença do covil. A mãe, quando
regressa, aflige-se muito por ver que eles saíram e carrega-os para o interior,
imediatamente.
Porém, esta "maré" das saídas não se pode estancar e a
mãe acaba por aceitá-la, embora se quede por perto, vigilante. Estabelecem-se,
normalmente, dois períodos de "recreio", um pouco depois do nascer do sol e
outro pouco antes deste se pôr, quando os predadores diurnos e nocturnos estão em
"mudança de turno" e a probabilidade de um mau encontro é menor.
Durante esses períodos de saída, que duram poucas dezenas de minutos,
os pequenos lobos alternam lutas "de brincadeira" entre eles com tentativas mais
ou menos desastradas de caça a pequenas presas, tais como borboletas, lagartixas, etc...
Depois, indo atrás da mãe, recolhem ao covil para se alimentar, seguindo-se um período
de sono bastante longo, normalmente de várias horas. Durante esta fase, a mãe vai
promovendo a transição da alimentação dos pequenos, intercalando a oferta de leite com
comida que ela própria caça, semi-digere e regurgita para os filhotes. Mais tarde,
chegará a trazer pequenas presas ainda vivas para que os filhos se habituem a caçá-las,
a dar-lhes morte e a comê-las de seguida. Nestas actividades de "caça
facilitada", é sobretudo o movimento da presa que chama a atenção dos filhotes,
despoletando a sua acção de perseguir e agarrar.
Os exercícios de luta (que, a propósito, se vão tornando com o tempo
cada vez mais sérios) configuram já um embrião das relações de forças entre os
diversos irmãos de ninhada; afirmam-se dominâncias relativas, estabelecendo-se
prioridades na alimentação e na ocupação dos espaços, associações preferenciais
entre alguns irmãos, etc., sendo a mãe, normalmente, parte bastante interveniente neste
processo.
A atitude normal da mãe é de supervisão, observando atentamente as
atitudes de cada um dos filhos, e a sua intervenção reveste-se de uma forma à primeira
vista algo inesperada: quando constata que um dos filhos se torna no "bombo da
festa", mordido e perseguido por todos os outros e assumindo uma atitude de defesa
(refugiando-se a um canto, costas protegidas contra uma qualquer antepara, mostrando os
dentes aos que o atacam), a mãe, quando se esperaria que o socorres-se, junta-se, pelo
contrário, aos restantes filhos, contribuindo para aumentar o caudal de ataque.
Tal atitude da mãe provoca dois efeitos notáveis; primeiro o de
afastar os restantes irmãos, que lhe entregam a iniciativa dos ataques; depois, uma
discreta variação do tipo de ataque, que se torna mais insistente e avassalador, mas sem
o magoar (ao contrário dos irmãos, que o castigavam com dureza). De tanto importunado, o
infeliz acaba por responder muito a medo, virando os dentes, ladrando e, mesmo, ensaiando
uma corrida em direcção à mãe que o agride. A mãe, que já esperava esta resposta,
foge ostensivamente, como que para se colocar a uma distância segura, o que deixa o
pequenito estupefacto com a eficácia da sua resposta.
A mesma cena repete-se três, quatro, cinco vezes, com o pequeno, cada
vez mais confiante, a perseguir a mãe durante largos metros, rugindo furioso. Satisfeita
com a resposta obtida, a mãe afasta-se, deixando de novo aos irmãos a tarefa de irem
importunar o infeliz. Grande surpresa os espera, porém, pois o há minutos
"infeliz" está tornado uma "fera", e enfrenta-os a pé firme,
escorraçando-os com grande facilidade. Não é invulgar que, depois de uma destas
"sessões" com a mãe, o mais perseguido e frágil (de um ponto de vista
psicológico) dos irmãos termine as brincadeiras, perseguindo e dominando todos.
Inversamente, quando existe entre os irmãos um certo equilíbrio,
destacando-se, no entanto, um deles que, pela sua agressividade e dominância em relação
a todos os outros, os domina em excesso e magoa consistentemente, a mãe acorre também,
mas desta vez para o subjugar de forma ostensiva. Abocanha-o, espalma-o contra o chão e
chega a deitar-se sobre ele, esmagando-o, literalmente, com o seu peso. Escusado será
dizer que tal "tratamento" deixa o pequeno muito abalado de um ponto de vista
psicológico, optando normalmente por fugir para um sítio seguro onde o
"monstro" (a mãe) não o alcance. Quando a mãe o deixa, regressa para junto
dos irmãos tentando passar o mais desapercebido possível, "sem levantar
ondas", isto é, corrigido do seu excesso de dominância (pelo menos
temporariamente...).
É também nesta fase que se verifica que a atitude normal dos lobinhos
é de uma observação atenta das atitudes da mãe; face a cada novo acontecimento e a
cada ruído desconhecido os peque-nos observam como a mãe reage. Se esta não liga,
aprendem a não ligar. Se a mãe se inquieta e empreende uma acção evasiva, fazem o
mesmo. Se ela reage agressivamente, juntam-se ao coro de ameaças, a pé firme, mas alguns
passos atrás da mãe. Aprendem, por imitação da mãe, a reagir aos estímulos externos.
Esta fase é conhecida por impregnação e é facil imaginar a influência
poderosa que o carácter da mãe exerce nos pequenos. Se esta for excessivamente nervosa
(ou agressiva, ou tímida, ou mesmo receosa) os filhos aprenderão a sê-lo também
dentro do quadro de base das suas inclinações naturais, geneticamente herdadas.
Mais tarde, à medida que se vão desenvolvendo e adoptando uma
independência maior em relação à mãe, os pequenos lobos passarão a "pensar por
si", e a resolver as novas situações mais na base da sua experiência do que na
observação da mãe.
Observemos agora um pequeno lobo numa acção de caça; cheira um rasto
(partículas de terra esmagadas pela passagem de outro animal que libertam o odor a
"terra fresca" do seu interior ou vegetação pisada que liberta o cheiro da
planta esmagada). Este rasto, que lhe parece interessante, prolonga-se até uma moita que
ele cheira atentamente e onde tenta penetrar. E é surpreendido por um grande coelho que
de lá salta e tenta a fuga. O lobo persegue-o de pronto, entusiasmado pelo movimento da
presa, que lhe desperta o ancestral instinto de caça. A sua corrida é elástica,
os movimentos são soltos e amplos, mas sem qualquer sintoma de agressividade. Supondo que
tem a sorte de abocanhar a presa, verifica-se que a sua mordida é forte e de "boca
cheia", tentando agarrar o máximo de carne possível, sacudindo a presa com
chicotadas da cabeça para desgarrar a carne e dar morte rápida. Se, pelo contrário, a
presa consegue fugir ao fim de uma perseguição infrutífera, o lobito desinteressa-se ao
fim de algum tempo e, se não estiver muito faminto, pode mesmo enjeitar a oportunidade de
perseguir outras presas que venha a encontrar depois pelo caminho.
Convém realçar que o nível de estímulo é médio e o instinto
provoca desgaste específico (cansa-se de caçar).
Caso tenha apanhado o seu coelho, é quase certo que outros irmãos se
aproximarão para tentar comer a presa. Ele, porém, posicionado bem sobre a comida,
olha-os fixamente de frente e arreganha o dente, eriçando o pelo das costas e rosnando e
ladrando de forma seca. Se algum irmão se aproxima demais, de imediato leva uma dentada,
rápida e dura, dada com os dentes da frente (e não de boca cheia), não com o intuito de
matar mas sim de magoar e castigar. A defesa da presa é intransigente e repete-se tantas
vezes quantas as tentativas de aproximação. Os movimentos são sacudidos, o nível de
estímulo é alto e este instinto de defesa mantém-se sem desgaste (dura enquanto
houver "desafio"). É esta uma das formas de estabelecer a sua supermacia na
relação com os seus semelhantes e verifica-se um comportamento idêntico em outras
situações da vida em sociedade; na ocupação de espaços, na defesa de territórios,
nas lutas futuras pela supremacia reprodutiva, etc. .
Caso, por exemplo, se aproxime um predador de maior porte (admitamos que
um urso ou o Homem), o lobo tentará evitar o confronto. É o seu instinto de fuga,
responsável pela sua sobrevivência enquanto espécie. Este pode assumir forma bem
nítida (fuga em corrida, ziguezageando, tentando despistar o predador) ou assumir formas
que se podem confundir com o instinto de defesa (quando encurralado "vira-se",
eriçando-se, rosnando, orelhas para trás, mostrando os dentes, mordendo de forma dura
mas sem ser de boca cheia como na caça, etc.). Este instinto não tem desgaste
(verifica-se enquanto houver ameaça) e corresponde a um nível de estímulo a
"sobreposse" (pode chegar a cair de exausto). De salientar que o instinto de
defesa e o instinto de fuga activa, para além de comportarem atitudes muito semelhantes,
são separados por uma "linha muito estreita" e que o animal passa com muita
facilidade de um para o outro "lado".
A maior parte destes comportamentos são bem conhecidos de todos.
Porém, ao lidar com um cão, convém tê-los sempre presentes, pois para ajudar ao seu
desenvolvimento, para o educar, adestrar ou conduzir, teremos que seguir estas formas de
comportamento para satisfazer as suas necessidades e utilizá-las para levar o
cão a fazer o que pretendemos. Conseguiremos sucesso na medida em que aproveitemos
estes comportamentos naturais "a nosso favor". Teremos insucesso e conflitos com
o nosso cão na medida em que não os respeitemos ou tentemos induzir comportamentos que
não estejam de acordo com esta sua "verdadeira natureza", que é virtualmente
imutavel.
"Modo de Vida" a
proporcionar ao cão
Inteirados das pautas de comportamento naturais mais importantes
que enformam a psique do nosso cão, devemos agora procurar satisfazê-las,
introduzindo no seu dia-a-dia condições tão parecidas quanto possível às suas
condições e comportamentos naturais.
Alojamento:
A habitação natural do lobo é o covil, onde o animal passa períodos
alargados. De vemos portanto tentar proporcionar-lhe algo de parecido, para que se sinta
bem.
Existem várias soluções, como a tradicional "casota de cão no
jardim" ou os canis com parte coberta e descoberta. Mas a que tem provado melhor é a
caixa (de arame ou de plástico, como a usada no transporte aéreo de animais) colocada
num qualquer sítio tranquilo e escuro dentro de casa, de preferência tapando essa caixa
com uma manta grossa (de Inverno) ou um lençol (de Verão).
Isto porque o Cão, pelas suas características de pelo e temperamento
fogoso, desgasta-se excessivamente se exposto às condições climatéricas externas ou se
colocado em zonas de grande passagem, pois estará permanentemente desassossegado,
"defendendo o portão" de todo o cão, gato ou pessoa que passe na rua. Além
disso, no exterior, encontrar-se-á exposto a todos os perigos, especialmente os
resultantes das picadas de mosquito, que transmitem doenças normalmente fatais como a
dirofilariose ou a terrível leishmaniose.
É portanto fortemente aconselhável que fique dentro de casa, mas
"em casa sua", e não disputando o espaço da Família nem a sua alimentação.
Isto sob pena de se tornar no "último infeliz" da família, o "menos
importante", a quem recusam lugar no sofá ou sobre a cama - coisa a que até as
crianças mais pequenas têm direito acima dele - e que come apenas em último lugar,
depois de todos (se calhar, até do gato). Tal estatuto seria fortemente degradante para
ele, e o seu temperamento ressentir-se-ia dessa posição de inferioridade (contra a qual,
aliás, por mais que lute não consegue progresso, dada a atitude inflexível com que é
sempre "corrigido"). Assim, com uma caixa, isto é, em espaço seu, é sempre
rei e senhor, ninguém lhe disputa o seu canto nem ameaça o seu domínio territorial: é
um igual do seu dono, atrás do qual se sentirá um "segundo", um "braço
direito" e não um "escravo" ou um "fim-da-tabela".
Ademais, devemos respeitar esse local como "sagrado" para o
cão, último refúgio e sítio de segurança absoluta, onde se sinta ao abrigo de todas
as ameaças. É, portanto, impensável castigá-lo nesse seu santuário, sob pena de que
ele se revolte e com justificadas razões - está em "sua casa".
Exercício:
O lobo tem dois períodos de actividade diária acentuada mas de curta
duração, em actividades como a caça ou o relacionamento social.
São períodos curtos, de actividade muito intensa, e que terminam com
uma refeição retemperadora. Fora desses períodos dorme por períodos alargados, de
várias horas consecutivas.
Tal indica que o nosso cão deve ter "saídas" ao amanhecer e
entardecer, com a duração de algumas dezenas de minutos, onde possa expandir as suas
energias, se possível "brincando às caçadas" com o dono; é o tradicional
passeio, em que se atira um pau para ele ir buscar ou se realizam exercícios mais
sérios, como a disputa de um trapo com o dono (podemos deixá-lo "ganhar" para
lhe incutir confiança) ou o perseguir de uma "presa difícil" como a bola de
ténis, que ele tentará apanhar em movimento. Caso se pretenda vir mais tarde a efectuar
trabalho canino, estes exercícios deverão ser bem programados e escalonados, para
desenvolver desde logo as suas aptidões naturais.
Face ao que fica dito, vê-se que um passeio de quatro horas ou de
trinta quilómetros é uma violência, pois não corresponde minimamente ao que seria
natural.
No caso de cachorros pequenos, é aconselhável manter quatro (e mais
tarde três) saídas por dia, sempre com o ritual "brincadeira primeiro / comida
depois" para corresponder aos seus ritmos naturais. É de esperar que coma e
"satisfaça as suas necessidades" em sítios próximos (para não "revelar
a presença do covil"), pelo que será de boa política estender uns jornais no chão
sob a gamela da comida, para evitar porcarias e salpicos e que ele começará naturalmente
a usar como casa-de-banho...
Alimentação:
A "dieta natural" dos lobos é muito variada, e compreende
desde peças de caça a vegetais vários, passando por excrementos e outros nojos
semelhantes.
Não seria fácil replicá-la em cativeiro com o nosso cão nem haveria
nunca a certeza de estar, em cada momento, a providenciar os alimentos de que ele carece.
Assim, a melhor solução (e de longe a mais cómoda) será adoptar uma boa marca de
ração, disponibilizando sempre água fresca em quantidades suficientes. Há que haver o
cuidado de utilizar as variedades adequadas a cada momento da sua vida e a cada fase de
actividade física: ração de crescimento até aos doze/quinze meses, manutenção
depois disso, alta energia para períodos de grande actividade (e só nesses
casos) ou ainda uma light para casos de dieta.
A maior parte das boas rações apresentam uma fórmula equilibrada, com
aditivos tais como minerais e vitaminas em doses suficientes para satisfazer todas
necessidades do animal. É errado suplementar essa alimentação com mais vitaminas e
cálcio. Desde que o cachorro consuma as doses adequadas e esteja equilibrado (nunca
o deixar engordar demais) apenas precisa de Sol (muito importante), exercício
em dose suficiente (exercício físico e mental) e muito carinho... E de visitar
regularmente o Veterinário para controle e vacinações (ver-se-ão adiante as vacinas).
Sociabilização:
A mãe "ensina" ao cachorro quando e como reagir até cerca
dos 5-6 meses. A partir dos 7-8 meses ele passará a "julgar por si próprio".
Vale isto por dizer que o dono (pessoa a quem ele se encontra mais
ligado, com quem se sente mais seguro e, de preferência, quem o passeia e lhe dá de
comer) substitui a mãe nesse papel durante aquele período inicial. É assim
aconselhável que o dono, sem nervosismos (dos quais o ca-chorro se aperceberia
imediatamente), o exponha durante esse período inicial a tantas situações
"estranhas" quanto materialmente seja possível: passeando-o pela cidade, no
meio do trânsito e dos ruídos, passando em Centros Comerciais, no meio da multidão,
expondo-o a ruídos altos (buzi- nas, foguetes, quedas de tampas de panela), andando de
carro, levando-o ao campo para ver cães e outros animais (cavalos, vacas, etc.); até o
simples facto de abrir um guarda-chuva ou deixar cair uma cadeira de costas ao levantar-se
é um experiência fundamental para o futuro do cão.
Isto porque essas situações ficarão gravadas para sempre na sua mente
como "normais", avalizadas que são pela presença do dono, que se mantém calmo
e despreocupado. E, futuramente, quando se depararem situações "novas" mas
semelhantes, ele tenderá a julgar (por si) da mesma maneira.
É, porém, fundamental que todo este processo seja gradativo. Isto é,
que não se deixe cair a tampa da panela sem que ele antes tenha ouvido cair um alfinete,
depois a colher de café, depois a colher de sopa e só então a tampa da panela. E isto
pressupondo sempre que ele reage da melhor maneira (com indiferença ou com algum
interesse - mas sempre sem medo) a cada etapa anterior.
Não é demais reforçar esta ideia de que as experiências devem ser sempre
positivas para o cachorro. Se, por exemplo, se der um encontro com outro cão, um
animal adulto que, de imediato, tente subjugar o cachorro, é fundamental que o dono não
deixe o cachorro ser subjugado nem que o puxe para se afastar do cão adulto, dando-lhe as
costas. No primeiro caso encorajaria a que o cachorro aceitasse a subjugação, e, no
segundo caso, estaria a ensiná-lo a fugir. Ambas estas atitudes se revestem de forte
carga psicológica negativa para o carácter em formação. Que fazer então? Sem alardes
nem excessos, deverá enxotar o cão adulto, afastando-o do cachorro. Provavelmente, irá
ser de imediato secundado pelo cachorro (esse sim, se calhar, com excessos e alardes), que
tentará cooperar com o dono na tarefa de afastar o visitante indesejável. O que se
conseguiu? Em primeiro lugar, uma colaboração bem sucedida entre o cachorro e o dono, na
prossecução de um fim comum, promovendo o companheirismo e a cooperação, recompensada
com uma gratificante vitória sobre o inimigo. Fortifica-se no cachorro a noção de que
"ele e o dono" formam uma dupla invencível, capaz de resolver todas as
situações.
Mas como toda a medalha tem reverso, isto promove de igual modo a
agressividade em relação a outros cães, e a extensão (inevitável na mente do
cachorro) da agressividade em relação ao mundo exterior. Convirá portanto promover,
assim que possível, um encontro com outro cão de carácter reconhecidamente não
dominante em relação a cachorros. O primeiro instinto do cachorro será o de
escorraçá-lo, tal como se havia feito ao anterior. Mas o dono (sem o repreender e sem
"castrar" essa tentativa), deve aproximar-se do outro cão e falar com ele,
acariciando-o. Deixará o seu cachorro algo perplexo, é certo, mas já tentando
compreender porque é que nem todos os outros cães são inimigos.
O que ficou dito em relação a outros cães aplica-se, como é
evidente, a todas as situações das quais possam resultar traumas de subjugação para o
cachorro.
Mesmo (sobretudo) em relação ao dono, pois ensinar não é
"castigar para provocar subjugação". A superioridade do dono é já
esmagadora: é ele quem providencia abrigo, comida, passeios, diversão, em suma, tudo. O
cachorro adora o seu dono mais do que a qualquer outra coisa na vida, e nada fará para o
hostilizar (a menos que o dono, por seu lado, o ensine a fazê-lo...); pelo contrário,
tentará agradar-lhe em todas as circunstâncias.
Mas o que pensará um cachorro que é castigado brutalmente pelo seu
dono por, seguindo os seus instintos, ter defecado em sítio seguro ?
Que culpa tem ele se o sítio que acha mais seguro é o centro do
dispendioso tapete da sala ?
Que pensará ele do dono que o castiga por massajar os dentes num
pedaço de couro ou de madeira como lhe manda o instinto?
Ele não sabe o que são sapatos italianos ou móveis do Século XVI...
E porque o castigam quando morde as mãos do dono, ao brincar, se não está a fazer nada
de diferente do que faria com a própria mãe ?
E, ao fim e ao cabo, se esses "acidentes" acontecem de quem é
a culpa ? Do cão, que segue os seus instintos, ou do Ser, por pressuposto racional, que
propicia as condições para que eles sucedam.
Quem castiga um bebé por defecar na fralda ou por bolsar leite sobre o
casaco do pai ? Ou o menino que, ao aprender a andar, puxa a toalha da mesa e faz cair uma
jarra valiosa ? Então porque se castiga um cachorro por seguir, ele também, o seu
comportamento natural ? Ser cão será alguma maldição que justifique todos os castigos
? Ou será o racional Ser Humano incapaz de compreender as motivações e comportamentos
do cão, incomparavelmente mais simples que os seus próprios ?
Na maioria dos casos, trata-se sobretudo de preguiça - ou de falta de
motivação - para pensar, um pouco à maneira do "ele que aprenda a nossa linguagem
e costumes", enquanto que a atitude digna de um Ser Racional seria a de tentar
compreendê-lo. O que envolve um esforço, pois claro.
Mas, tal como com a maior parte dos esforços feitos por amor, as
compensações são grandes. Um cão compreendido é um cão reconhecido ao seu dono,
capaz de dar a vida por ele. É um cão seguro de si, capaz de estar no meio das pessoas
mantendo a sua identidade e mantendo-se no seu lugar, mas sempre pronto a intervir quando
necessário. É, sobretudo, um Amigo que não deixará de nos surpreender, dia-a-dia, com
as provas da sua amizade e com as atitudes mais inesperadas, revelando ser muito, mas
mesmo muito, mais inteligente e mais digno do que aquilo que alguma vez poderíamos supor.
Duas palavras:
Primeiro sobre a caixa, que
para o cão é a sua casa mas que, por confusão e falta de compreensão nossa, às vezes
olhamos como "prisão". Não o é nunca para o cão e haveremos de reparar que,
com a continuação, ele a procura naturalmente para se deitar quando se sente cansado
(deve deixar-se a porta aberta quando ele sai). Para além disso, a falta de descanso
suficiente (20 a 22 horas por dia, como mínimo) pode levar ao aparecimento de sintomas de
incorrecto desenvolvimento físico (mãos abertas, aprumos a fugir da vertical, linha
dorsal selada, etc.) e mental (nervosismo excessivo, perda de apetite, mau funcionamento
dos intestinos, etc.), tudo isso devido à falta de descanso físico e mental.
Depois sobre a guarda, que,
supômo-lo muitas vezes, o cão só pode fazer convenientemente se estiver no exterior de
casa. Nada mais errado: um cão defende melhor de dentro de casa do que de fora dela.
Continua a dar sinal de toda e qualquer "tentativa de invasão", intimidando o
"invasor", que o ouve mas não o vê, tornando-se mais intranquilizante porque
não se sabe em que altura poderá ser solto para o vir "receber" condignamente.
Além disso é muito mais difícil de neutralizar, pois não é possível ao
"invasor" habituá-lo à sua presença, nem tentar fazer amizades interesseiras
com ele, nem envenená-lo, nem mesmo saber ao certo onde o cão está.
Cronologia dos acontecimentos mais
importantes
Tempo |
Acontecimentos |
Intervenções |
Cuidados
Médicos |
Dia 0 |
Nascimento |
Ajuda ao nascimento (1) |
Os necessários (1) |
Dia 0-1 |
Mama colostro (2) |
- |
- |
2º-5º dia |
Mama leite |
- |
Alimentação forçada (3) |
3º dia |
Amputação da Cauda (a) |
Garrote, Corte, Sutura |
Desinfecção |
8º-12º dias |
Abrem-se olhos e orelhas |
- |
- |
15º-20º dias |
Começam a brincar |
- |
- |
21º dia |
Começam a comer papas |
- |
- |
30º dia |
Desparasitação |
- |
Strongid pasta |
42º dia |
1ª Vacinação |
- |
Tetradog ou Canigen (4) |
45º dia |
Desparasitação |
- |
Strongid pasta |
46º-47º dia |
Já quase não mamam |
- |
- |
49º dia |
Testes de Carácter |
- |
- |
50º dia |
Saída para o dono |
- |
- |
51º-55º dias |
Visita ao Veterinário (5) |
- |
- |
2º mês e segs. |
Desparasitação |
- |
Ver Nota sobre
Desparasitação |
2-2½ meses |
Corte de orelhas (b) |
Anestesia e otoplastia |
Antibiótico (durante 8 dias) |
3-3½ meses |
1º Reforço das Vacinas |
- |
Tetradog ou Canigen (6) |
4-4½ meses |
2º Reforço das Vacinas |
- |
Tetradog ou Canigen (6) |
4½ -5 meses |
Vacina da Raiva (7) |
- |
- |
5-5½ meses |
Primeiras saídas
"livres" |
- |
- |
(1) Podem ser diversos, e vão desde
"nada" ou uma simples ajuda ao romper do saco embrionário e colocação ao pé
da mãe para que esta tome conta dele, até à tentativa de reanimação caso nasça em
dificuldades ou "morto" (desobstrução das vias respiratórias, respiração
artificial, mas-sagem cardíaca, choques térmicos, massagem geral), etc... Em casos que
envolvam perigo para a mãe pode ser necessário recorrer a cuidados médicos (cesariana,
por exemplo).
(2) Através do colostro (líquido amarelado que a mãe segrega
antes de começar a produzir o lei te e que os cachorros mamam no primeiro dia ) recebem
os anticorpos da mãe que os protegerão por algum tempo das doenças que o organismo da
mãe "conhece". Ou seja, das doenças contra as quais ela está vacinada ou de
que já sofreu e contra as quais está imunizada. O cachorro apenas absorve esses
anticorpos através do intestino durante o primeiro dia de vida.
(3) Quando algum recém-nascido entra em hipotermia (abaixamento
de temperatura corporal) e perde o instinto mamário por razões várias (não estar em
muito boa condição por dificuldades respiratórias, ou por se ter fixado numa teta da
mãe com pouco ou nenhum leite, por exemplo), é por vezes necessário, para o salvar,
recorrer à alimentação artificialou forçada, por biberão ou por sonda gástrica. Este
cuidado pode ter de se manter até ao 5º ou 6º dias.
(4) Cobertura "tetra" : Parvovirose,
Leptospirose, Hepatite e Esgana, normalmente com as vacinas de conjunto da Rhône-Merieux
(Tetradog) ou da Virbac (Canigen CHA2PL). Igual no 1º e 2º Reforços, em princípio.
(5) É de toda a conveniência fazer-se esta visita "de
reconhecimento" tão cedo quanto possível. Sobretudo se o cão for para uma zona
geográfica afastada da do Criador, pois pode ir encontrar uma situação epidemiológica
completamente diferente daquela em que se encontrava. Confirmar com o novo Veterinário se
este concorda com os procedimentos de vacinação, desparasitação e cuidados gerais
propostos (mas resitir à suplementação com cálcio e vitaminas) e estabelecer um
"plano de contingência" que permita um contacto em caso de emergência durante
24 horas por dia, 365 dias por ano.
(6) Em princípio, nova cobertura "tetra"
(normalmente com as vacinas de conjunto referidas em (4) acima) uns dias após ter
terminado os antibióticos que se seguem ao corte de orelhas. Porém, ter em atenção a
opinião do novo Veterinário, tal como referido em (5).
(7) Pedir ao Veterinário o Cartão Nacional de Identificação
("livrete" oficial) e a Declaração Modelo 31/CZS. É requisito essencial para
a participação em Exposições, registos Camarários, Seguros, etc..
(a) Nas raças que o praticarem.
(b) Nas raças que o praticarem.
Notas
Desparasitações:
O programa de desparasitação contra as lombrigas deve prosseguir em
sintonia com o determinado pelo Veterinário assistente. Em princípio será repetida de
mês a mês até aos 8 ou 10 meses e, daí em diante, repetir-se de três em três ou de
quatro em quatro meses. O Strongid pasta é cómodo para aplicação em cachorros, mas
poderá, em cães mais velhos, ser substituido por comprimidos (Lopatol, por exemplo).
Convirá também fazer a prevenção de ténias (Droncit, Rintal ou equivalente).
É, normalmente, considerado de boa política fazer alternar
ocasionalmente o desparasitante (escolhendo um com um princípio activo diferente), para
evitar fenómenos de habituação pelos parasitas, com a inerente perda de eficácia da
desparasitação.
Outras Medidas Preventivas:
O programa de vacinação aqui aconselhado deve ser confirmado e
validado com o Veterinário assistente.
Embora apenas a vacinação anti-rábica seja exigida por lei, é
vivamente aconselhável, como mínimo, o programa sugerido. Dependendo das regiões e da
situação epidemiológica local, poderá ser aconselhável uma cobertura complementar
contra outras situações, tais como a laringotra- queíte vírica (tosse de
canil), corona virus, dirofilariose (verme do coração), ou ainda
prevenção especial contra portadores de outros infestantes (mosquito phlebotomus,
transmissor da leishmaniose, para a qual não há ainda cura) e
ectoparasitas (pulgas, carraças, etc.). Para estes últimos existem insecticidas
de aplicação externa extremamente eficazes (FrontLine, BioKill, Gamasecto, etc.)
perfeitamente inócuos para o cão e à partida preferíveis em relação a outros tipos
de medicação (de aplicação sistémica).
Os Dentes Definitivos :
Um aspecto a que se deve prestar especial atenção, durante o cresci-
mento de um cachorro, é o da formação da dentição definitiva.
Com efeito, apesar de o Criador ter verificado que a fórmula dentária
do cachorro é a correcta, podem surgir anomalias quando os dentes de leite caem e são
substituidos pelos dentes definitivos, entre os três e os quatro meses, isto é, quando o
cachorro já se encontra com o seu futuro dono.
Assim, deverá o dono prestar uma especial atenção, durante essa fase,
ao surgimento dos dentes definitivos, que devem começar a despontar um ou dois dias após
a queda dos dentes de leite.
Porém, o que por vezes acontece é que esse aparecimento dos dentes
definitivos sucede antes dos dentes de leite caírem (muito vulgar no caso dos
dentes caninos), por a sua implantação ser ligeiramente descentrada da do dente de
leite. Significa isto que o novo dente encontra a resistência de um dente de leite ainda
solidamente implantado, arriscando-se a ser desviado do seu local de implantação
correcta. As consequências podem ser catastróficas para o normal encaixe da dentição -
e para a carreira do cão.
Torna-se, portanto, fundamental que o dono ajude a sair os dentes de
leite que não caiam naturalmente (puxando-os com uma pinça ou com um pequeno alicate no
sentido oposto ao da sua implantação), por forma a que um tal "desastre" não
suceda. Caso o dente de leite esteja ainda muito fixo, deverá o dono procurar de imediato
o Veterinário assistente, que procederá à referida extracção.
 |